31 de janeiro de 2012

Trapo



O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve
bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco
triste.
Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar
estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é
elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem
sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao
sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol
visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

Hoje quero
só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono
de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem
explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afetos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu
azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do
caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não
sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso.



Álvaro de Campos

2 comentários:

S* disse...

Quando estava lembro-me de dar este poema... a ligação à natureza e a simplicidade da escrita deste heterónimo são deliciosas.

João disse...

Ainda há pouco tempo, bloguei um do Pessoa, com esse heterónimo. "Se te queres matar". Espectacular, B*.